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eclamações vagas.
Eis o caso: o Bartholomeu da Ventosa era rico e avaro; mas
bestialmente avaro: Perpetua Rosa pobre, pobrissima. Por mal
de peccados fôra ella antigamente lavadeira do casal do moinho,
ou antes dos moinhos, porque para a exacção historica deve-se
advertir que o moleiro possuia dous. Uma vez, que levára grande
porção de roupa, tinha perdido tres saccas velhas e rotas.
Bartholomeu quando tal soube quiz morrer.--"Juro por esta--dizia
elle esbravejando e beijando os dous dedos indices cruzados sobre
a bôca:--juro que Perpetua Rosa me ha-de pagar as minhas tres
saccas novas em folha, que me perdeu, a desalmada!"--Mas nem
novas nem velhas; porque a verdade era que ella não tinha com que
as pagasse. Forçado foi, portanto, ao moleiro fartar a vingança
com ordenar-lhe que não lhe tornasse a rapar os pés á porta. Desde
este fatal dia nunca mais Bartholomeu da Ventosa pôde encarar com
a lavadeira: o seu odio vivia involto e aquecido na imagem das
tres saccas gravada naquelle coração de avarento. Assim para elle
seria cousa monstruosa e abominavel só o imaginar a possibilidade
de seu filho Manuel casar com Bernardina, a quem a pobreza fôra
de sobra para impedimento dirimente, quanto mais o ser filha de
semelhante mãe. Tal era a difficuldade insuperavel que se oppunha
á união dos dous amantes.
E os mezes íam passando, e as murmurações crescendo, e saltando
já das lavadeiras para as beatas. Tinham visto mais de uma vez
(dlzia-se: valha a verdade) o moço moleiro rondando a deshoras
a barraquinha da beira do rio. Havia tambem quem dissesse que
nas madrugadas de alguns domingos, quando a senhora Perpetua
Rosa saía para a missa das almas, se enxergava ao lusco fusco
um vulto, que, cosendo-se com os choupos, se aproximava da porta
da Bernardina, e... e etcaetera. Era muito vêr! Mas a cousa ía
correndo, e no fim de contas quem ganhava com essas historias
eram as linguas dos maldizentes, que se refocillavam na palangana
da murmuração, e o diabo que se lambia para, por estas e por
outras, os catrafilar a seu tempo.
Veio a quaresma: sancta quadra; mas que por isso mesmo é ás vezes
boa de mais. Desobriga vae, desobriga vem, sabe-se muita cousa.
O padre prior andava já com a pedra no sapato; porque elle não
era cégo nem mouco. Meu dicto, meu feito. Certo dia (por signal
que era uma sexta-feira), quando o sacristão veio abrir a porta
da igreja, estavam já no adro á espera Perpetua Rosa e Bernardina
para se confessarem. Não tardou o prior. Aviou-se a mãe: ajoelhou
a filha: persignou-se, benzeu-se, disse _mea culpa_, e começou
sua confissão.
Se isto fosse uma historia de polpa, cortesan e culta, viria neste
ponto o _casus foederis_ de eu tomar a postura tragica a la moda,
carregando as sobrancelhas, e dizendo em tom soturno e lento:--"O
que ahi se passou entre o veneravel ancião e a donzella ninguem
o soube!--!--!--!--Mysterio!--!--!--! Acontecimento horrivel e
fatal!--!--!--! As lagrymas ardentes do velho caíram sobre a
cabeça da infeliz ajoelhada a seus pés, cujo futuro (não o dos
pés, mas o da infeliz) era de maldicção!--!--!--!" Limitada,
porém, a minha narrativa a chan e plebéa recordação de um pobre
parocho d'aldeia, reflectirei em summa, que me não é licito revelar
o segredo do confessionario. Os sigillistas já deram que fazer
ao marquez de Pombal, cuja consciencia, como todos sabem, era
delicadissima em materias de orthodoxia catholica, e em tudo.
Calo-me, porque não quero caír no erro que elle condemnou. Direi
só que foi mui demorada a confissão de Bernardina, e que, ao
alevantar-se d'ante os pés do prior, ella trazia os olhos como
punhos: e digo-o, porque o viram os circumstantes, a saber, o
sacristão e a senhora Perpetua Rosa, que devotamente ía descabeçando
a penitencia em quanto a filha se desobrigava.
Ao sol posto desse mesmo dia o prior espairecia a vista pela veiga
coberta de verdura, assentado no cruzeiro, segundo o seu costume.
A brisa da tarde era fria e aguda, porque a primavera começava
apenas; mas o velho parocho parecia não a sentir, embebido em
cogitações; e tão fundas íam estas, que, em vez de traçar na terra
com a bengala as usuaes figuras geometricas, ou anti-geometricas,
conservava-a immovel e perpendicular, com as mãos cruzadas sobre
o castão, firmando a barba em cima. Conhecia-se-lhe no olhar e no
mecher tremulo dos beiços, que algum grande cuidado o inquietava.
E tanto assim, que nem reparou nos tres signaes das ave-marias,
deixando-se ficar sentado, e até, oh profanação! com o chapeu
na cabeça. Felizmente não passava ninguem naquelle momento, que
podesse notar a involuntaria irreverencia do distrahido pastor.
Mas um vulto assomou lá ao longe, e os olhos do velho brilharam
como animados por vida nova. Quem quer que era descia do monte,
e vinha para a banda do rio. O caminho passava perto do adro:
o prior ergueu-se, estendendo a mão, e brandindo a bengala na
direcção do vulto.
"Oh Manuel! psio, Manuel! chega á fala! Oh rapaz!"
O filho do moleiro (porque era elle) hesitou um pouco. Alguma
cousa lhe roía na consciencia. Mas vendo o prior em pé com ar
de quem estava resolvido a ir atravessar-se-lhe diante, cortou
para elle com o barrete azul e vermelho na mão.
"Boas tardes, padre prior: quer alguma cousa?"
"Quero que você chegue aqui, porque temos que falar."
O tom com que estas palavras foram proferidas, e mais que tudo
aquelle _você_, fizeram estremecer o Manuel da Ventosa. O prior
tractava todos por tu, e o você na bôca delle era presagio infallivel
de temporal.
O rapaz parou diante do velho com os olhos cravados no chão,
torcendo e destorcendo a orla do barrete que tinha entre as mãos.
O padre prior mediu-o de alto a baixo, e começou _ex abrupto_:
"Então que historias são estas da Bernardina, sô velhaco da conta
benta? Sabe o que fez, grandessissimo tractante? Aonde foi você
aprender isso? (Esta pergunta era asnatica). É a doutrina que
eu lhe ensinei em pequeno? De que tem servido os exemplos de
modestia e honra que lhe dá seu pae? De ser um vadío, um seductor,
um... Deixe estar: a cadeia não se fez para as aranhas, e elrei
nosso senhor (o bom do parocho puxava em politica para a eschola
historica) ainda não mandou queimar a náu de viagem..."
"Eu, padre prior... como lhe ía dizendo--interrompeu atarantado
o saloio, coçando na cabeça, e procurando atar o fio das suas
idéas inteiramente confundidas.
"Cale-se; não me responda:--proseguiu o velho parocho, achando
talvez pouco cinco perguntas para ouvir uma resposta.--Diga-me:
que tenções eram as suas enganando uma rapariga honesta?"
"Eu..."
"Não me replique; já lh'o disse. Lembre-se de que é o seu pastor
que lhe fala. Ahi está porque você ainda não veio desobrigar-se.
Pensava que, por ella ser miseravel e sua mãe uma triste viuva,
não tinham ninguem neste mundo? Enganou-se. Tem-me a mim. Saiba
que a poder que eu possa ha-de ír bater com o costado na India,
ou casar com a Bernardina."
Aqui o pobre rapaz atirou-se de joelhos a chorar aos pés do velho,
e exclamau soluçando:
"E é isso o que eu quero!... Juro-o por aquella arvore da bella
cruz que alli está..."
"Vera cruz, salvage! vera cruz!--interrompeu o prior, visivelmente
abrandado com o pranto, humildade, e declaração categorica do
moço moleiro.
"Mas, como eu ía dizendo--proseguiu este--por'mor daquella diabrura
das saccas meu pae não póde tragar a senhora Perpetua Rosa. Se lhe
falasse em tal, fazia-me os ossos tão miudos como a picadura da
mó. Se a Bernardina tivesse dote, ainda talvez elle consentisse...
Mas sem isto; bem lhe sabe do genio. Se o padre prior podesse
adivinhar o que me tenho ralado, havia de ter dó de mim. Não
como, não durmo, ando doudo. Não basta a massada que gramei...
Ahn! ahn! ahn!"
Chorava em berreiro, e o chôro não o deixava continuar. As lagrymas
começaram tambem a bailar nos olhos do prior, que ficou por alguns
momentos pensativo.
"Levanta-te, rapaz dos meus peccados:--disse elle por fim, puxando
pelo braço do moleiro.--Vamos; confessa a verdade: estás arrependido
do que fizeste?"
"Estou, sim senhor! Ahn! ahn!"
Nesta parte, apesar do chôro e soluços, parece-me que o saloio
mentia.
"Promettes casar com Bernardina, se teu pae consentir?"
"Prometto, sim senhor! Ahn!"
"Ora, pois, socega, e não chores. Deixa o caso por minha conta.
Volte para casa, e não me torne a rondar pela beira do rio. Entende?
Olhe que!..."
O prior estendeu a bengala para o lado dos moinhos, que assobiavam
lá no alto, e Manuel da Ventosa voltou cabisbaixo e a passos
lentos pelo caminho por onde viera. Sentia confusamente que se
aproximava a crise mais temerosa da sua vida.
Então o padre prior assentou-se outra vez no poial do cruzeiro,
e recaíu em profunda meditação. Depois de um bom quarto de hora,
poz-se em pé e encaminhou-se para o presbyterio. Tinha anoitecido.
De memoria de homens nunca ceiára tão tarde!
E andando, o velho sacerdote repetia aquellas palavras do livro
de Job, onde, entre parenthesis, ha mais philosophia que n'um
aduar inteiro de philosophos:
_Nudus egressus sum de utero matris meoe, et nudus revertar illuc_[2].
O porque o dizia, bem o sabia elle! Ceiou sem dar palavra: resou
o breviario: deitou-se, e apagou o candieiro. Contra o costume,
Fr.
Bernardo de Brito e Fr. Diogo do Rosario ficaram aquelle serão
na estante. A ama sentiu-o assoar-se, tomar tabaco, e escarrar
até muito tarde. Cousa rara! signal evidente de que tinha negocio
de vulto, que lhe embargava o dormir!
Peior foi pela manhan. Apenas luziu o buraco, o padre prior saltou
da cama; calçou os sapatos engraixados; vestiu a loba nova; pediu
o chapeu de tres ventos, a bengala de castão de prata, e os oculos
fixos, que só punha em dias de missa cantada, e disse á ama que
se aviasse com o almoço, porque tinha de saír cedo.
Emquanto a tia Jeronyma, para maior brevidade, fazia umas papas
de milho, o prior abriu um contador enorme, destes que os nossos
grandes amigos inglezes nos vão agora levando em logar de vinho
do Porto, tirou para fóra uma folha de papel almasso, e bradou:
"Jeronyma! oh Jeronyma!"
A velha chegou ao corredor da cozinha com o abano na mão.
"Estão quasi feitas:--disse ella.--Tenha paciencia um instantinho."
"Não é isso, mulher:--replicou o prior.--Ouve cá: vae ao forro
da escada e traze-me aquillo."
"Isso, eu lá ponho. Mas, com sua licença, d'onde veio maquia grossa?
Hontem não houve baptisado nem enterro..."
E a tia Jeronyma estendia a mão esquerda coberta com a ponta
do avental, para não sujar a maquia de que falava, e ao mesmo
tempo volvia olhos ávidos, ora para o bofete, ora para o prior.
"Qual carapuça!--replicou elle fazendo-se vermelho.--Tira-se;
não se põe. Faça o que lhe digo, e dê ao démo o que sabe."
A ama empallideceu. As palavras _tira-se; não se põe_ eram de ruim
agouro; mas vendo já o padre prior azedo, calou-se e obedeceu.
D'alli a pouco o velho parocho começava a tirar de um pé de meia
uma, duas, tres peças de ouro; foi tirando até setenta: restavam
apenas obra de uma duzia dellas.
"Basta:--rosnou o prior.--Póde occorrer uma doença. Então, Jeronyma,
vem essas papas?!"
E dizendo isto embrulhava muito bem as setenta peças na folha
de papel que tinha sobre o bofete, e mettia-as na algibeira da
loba.
"Guarde isso, Jeronyma:"--disse elle á ama, que entrava com as
papas. E empurrou pela mesa fóra o exangue pé de meia. A ama,
ao vêr aquella horrorosa sangria, esteve a ponto de largar a
frigideira no chão, e de deixar o bom do padre sem almoço.
Quando voltou para a cosinha, ouviu-a o prior soluçar.
"_Nudus egressus sum de utero matris meoe, et nudus revertar illuc._"
Murmurando esta profunda sentença da Biblia, o reverendo parocho
saiu pela porta fóra. A ama, vendo-o saír, andava como pasmada.
Nestas idas e voltas havia nascido o sol. O Bartholomeu da Ventosa,
afanado com a sua lida, em pé á porta de um dos moinhos, bracejava,
ralhava, praguejava como um possesso. Os brutos dos moços tinham-lhe
quebrado já duas cordas ao _enquerir_ as cargas de uma récua de
machos pimpões presa á argola do moinho.
De repente viu um castão de bengala saír-lhe por cima do hombro.
Voltou-se: era o prior.
"Olé, vossenhoria por aqui a estas horas?!... Psio, oh Zé Dorna,
olha o rabicho daquelle macho!... Grande novidade, padre prior!
grande novidade!... Raios te partam! Que tal'stá o filho do diabo?!"
Estas duas ultimas jaculatorias eram acompanhadas de dois
reverendissimos pontapés na barriga de uma das cavalgaduras, que
já estava carregada, e que parecia achar mais prudente deitar-se
em quanto as outras se aviavam.
O moleiro dava assim a modo d'umas lembranças de Napoleão dictando
ao mesmo tempo a dous secretarios.
"Falaste, Bartholomeu!--replicou o prior.--Novidade, e grande!
Ha quarenta annos que sou parocho desta freguezia, e é a primeira
vez que tal me succede. É negocio intrincado, e quero ouvir o teu
conselho, porque tens caixa para as cousas. Rapazes--accrescentou
dirigindo-se aos moços do moinho--safa d'aqui, que tenho que
dizer ao patrão em particular."
"Rua!--gritou o moleiro correndo com força ambas as mãos pelo
colete e pelos calções, donde saíu um nevoeiro de farinha.--Entre
vossenhoria."
O prior entrou, e foi assentar-se n'uma tripeça que estava a um
canto: Bartholomeu assentou-se sobre um sacco de trigo defronte
delle. Os dous velhos mediram-se com os olhos por momentos, como
se cada um delles tentasse ler no rosto do outro os pensamentos
que lhes vagavam na alma. A primeira idéa que occorreu ao moleiro
foi a de alguma festa que o parocho pretendia fazer, e para que
lhe vinha pedir dinheiro. Batia-lhe o coração com violencia,
e já imaginava trinta mentiras para evitar essa calamidade.
"Homem--disse por fim o prior--tenho em minha mão uma somma avultada;
mais de quinhentos mil réis (o moleiro estendeu o pescoço); pertencem
a um devoto, que os quer dar em dote a uma rapariga pobre desta
freguezia. Encarreguei-me do negocio, e deitei as minhas linhas
para dar no vinte. Mas temo não acertar, e venho bater comtigo.
És honrado, meu Bartholomeu, posto que um tanto sovina: falo-te
com o coração nas mãos, e..."
"Isso é o que dizem por ahi essas linguas perversas--interrompeu
o moleiro, fazendo-se vermelho de colera;--essas mandrionas do
soalheiro, porque lhes não metto no bandulho o meu remedio. Os
diabos me levem..."
"Tá, ta!--acudiu o prior.--Ajustaremos contas na desobriga. Vamos
agora ao que serve. Sem refolhos: a quem te parece que dêmos
este dote? Parafusa lá."
O moleiro poz-se a scismar, alevantando os olhos para o tecto,
estendendo e revirando a mandibula inferior, e batendo de quando
em quando na testa.
"Nada ... a Genoveva da Theresa não:--disse por fim.--Tal mãe,
tal filha. Aquella está arrumada."
"Nem pensar n'isso é bom:--retrucou o prior.--_Libera nos Domine._
Anda, vê se atinas."
"A Clara da Fonte tambem não..."
"Uhm!--rosnou o clerigo, abanando a cabeça.
"A Catharina Carriça menos. Heim?"
"Tó carapuça! Ahi vae já! Fundia-me o dote em menos de um anno
com tafularias tolas. Adiante."
O leitor póde prever que o Bartholomeu da Ventosa e o seu parocho
estavam no caso de duas linhas parallelas, que, prolongando-se
indefinidamente, nunca podem encontrar-se: o pensamento do prior
dirigia-se a Bernardina, e o moleiro já tinha affastado por tres
vezes do espirito essa lembrança como uma idéa importuna.
"Eu--disse elle finalmente, coçando na cabeça--tinha cá uma idéa...
mas não sei... Não digo nada... Acabou-se."
"Desembuxa lá, homem! Foi para te ouvir que vim aqui."
"Então sempre lh'o direi. Minha sobrinha Joanna é um anjo. Boa
rapariga! famosa rapariga! Meu irmão Barnabé não pede esmola,
é verdade; mas anda atrapalhadote. O casal dos Caniços arrasou-o
este anno: deve-me já vinte moedas, e..."
O prior cortou-lhe o enthusiasmo pelos seus parentes com uma
gargalhada estrondosa. O moleiro ficou de bôca aberta no meio
daquelle destampatorio.
"Oh, oh, oh! querias que o meu dote servisse para pagar as tuas
vinte moedas?! Não é assim?--E, voltando immediatamente ao seu
serio, proseguiu:--Bartholomeu! Bartholomeu! _Por causa da iniquidade
da sua avareza me irei, e o feri_: diz o propheta. A cubiça que
te cega ha-de baldear-te no inferno, como tu baldêas alli para
a ribanceira as mós que já não prestam. Queres mentir á tua
consciencia, enganar o teu pastor, quando elle te vem pedir que
o aconselhes? Isto não é bonito, Bartholomeu! Não é bonito!"
"Mas, padre prior..."
"Qual mas, nem meio mas! Deixemo-nos de historias. Bem diz o
dictado:--Fui a casa da vizinha envergonhei-me; vim á minha
remediei-me.--O melhor é seguir a primeira lembrança."
"Então, se vossenhoria já tinha posto o dedo..."
"Tinha, tinha!--retrucou o prior:--Queria só ver se tu concordavas
comigo: mas sacas-te com uma exquisitice de fazer arripiar. Não
temos feito nada, meu Bartholomeu: não temos feito nada!"
E dizendo e fazendo, o clerigo erguia-se como para saír.
"Pois diga vossenhoria--acudiu o moleiro ainda atrapalhado com
o _revertere_:--e enforcado morra eu se..."
"Não praguejes, homem! Ahi vae! Quem ha-de apanhar o dote é a
Bernardina d'ao pé do rio..."
A historia das saccas era espinha que ainda lhe estava atravessada
na garganta: ouvindo tal nome, o velho não pôde conter-se:
"Quem? A cara de fuinha da filha de Perpetua Rosa? O padre prior
está brincando. Olha as lesmas! Umas desmaseladas, e caloteiras!
Isso, nas unhas da mãe, era fogo viste, linguiça. Terçans me
matem..."
"Espera, homem, espera! Não é isso o que se diz na aldeia. Tu tens
osga ás pobres mulheres, e cega-te a paixão. Desmaseladas?! Basta
o